Na última semana de setembro, uma marcha “anti- imigrantes” no Chile terminou em uma cena estarrecedora: uma grande fogueira com diversos pertences dos migrantes em chamas. Apesar das imagens rodarem todo o mundo, somos frequentemente absorvidos por muitas notícias diárias, e talvez esta cena tenha passado desapercebida. A tolerância diante daquele que é migrante e que chega até um outro território, na maioria das vezes, com quase nenhum bem material; pareceu estar literalmente em chamas no Chile.

O fato ocorreu na cidade de Iquique, a 1.759 quilômetros da capital, após uma manifestação com a presença de 5.000 chilenos que protestavam contra a permanência de um grupo de migrantes venezuelanos que estavam acampados em uma praça da cidade. O hino do país ecoava e bandeiras nacionais chilenas se agitavam pelas ruas da cidade; expressando abertamente a repulsa do grupo de manifestantes para com os migrantes sem-teto ali alojados. Seria esse um prelúdio a ser enfrentado por migrantes “não desejados” em todo o mundo?

Manifestantes chilenos queima bens e objetos pessoais de migrantes venezuelanos na cidade de Iquique, Chile. Foto: Johan Berna

A pilha em chamas com os poucos bens materiais daqueles migrantes nos remete a cenas passadas de intolerância enfrentadas por pessoas perseguidas por movimentos ultranacionalistas, que reforçavam a xenofobia e a aversão a pessoas não nacionais ou a grupos étnicos específicos. Documentos de identificação pessoal, instrumentos musicais, fotos, brinquedos infantis, carrinhos de bebês com fraldas e outros bens pessoais foram queimados em uma grande pira em uma avenida da cidade.

É estarrecedor pensar que ao se deslocarem entre as fronteiras, milhares de migrantes pelo mundo mal conseguem carregar consigo alguns dos seus bens pessoais, e quando conseguem, como foi o caso destes migrantes venezuelanos, tudo é corrompido pelas chamas da intolerância, do desprezo e da discriminação. Queimar bens pessoais como forma de punir, de eliminar ou de destruir a memória, a história de travessia de um povo e os seus poucos registros, é um ato bárbaro e transgressor que deve ser condenado e combatido por todos nós. Cenas como essa não corrompem apenas os objetos e memórias de um povo, mas também os valores e princípios intrínsecos a humanidade.

Foto da capa: Martin Bernetti

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